Abriu os olhos, mas a visão demorou a ficar perfeita. Retomou a percepção do local e tempo em que estava. Colocou os óculos escuros e olhou através do vidro da janela. Estava um sol enfadonho lá fora. Ajeitou-se no assento do carro e olhou paro o lado. Ele ainda estava ali. Voltou a atenção para o exterior, novamente. Esse, agora, em tons de preto e branco. As nuvens continuavam rijas, ao contrário do cenário terrestre que continuava a correr, sem perder o fôlego e compasso, na mesma velocidade do carro. A música tocava alta e triste. Os acordes e palavras carregadas pesavam os ouvidos e a consciência dos dois ouvintes. Percebeu que algumas gotas caiam sobre o vidro e, também, algo quente escorria por seu rosto. Sentiu um gosto salgado nos lábios. Há tempos isso não ocorria. No mesmo instante em que outras lágrimas começaram a brotar, ela foi para longe dali.Não iria mais ter que se preocupar com nada. Não teria que fazer o cotidiano acontecer. Nem teria que fingir ser feliz. E diante a diversidade de opções, ela se sentiu livre. Livre de suas posses, obrigações, fingimento. Isso seria bom. Maravilhoso.
O cenário do carro voltou. Algo crescia de orelha a orelha em seu rosto. Pois bem, um sorriso. Esse dissipou as lágrimas e a tristeza. Tão tola era ela em pensar que, aquela contracção facial, iria acabar com seus pesadelos. É. Foi aí em que tudo voltou a ser como começou.
Ela tentou se concentrar no exterior, na negritude, mas sua prioridade era outra. Derreteu pelo assento, tentando se esconder da negritude, e fechou os olhos. Puxou uma reza pedindo pelo fim.
E com o peso dos acordes e das palavras, suas pálpebras penderam e fecharam.
1 comentários:
Faz tanto tempo que não sinto o tal gosto salgado ;)
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