Andei por ruas desconhecidas. Sem nomes, sem histórias. Driblei corpos em movimento. Desviei de dejetos. Dejetos de uma sociedade decadente. Sem nome, sem história. Vi lugares maravilhosos, que mereciam um minuto a mais da minha atenção. E vi pessoas que não deveriam ter tido um minuto da minha atenção. Mas, no meio dessa desorganização de idéias e imagens, eu ouço um som. Notas longas e compassadas. Viro minha cabeça à procura do reprodutor. Lá está ele. Um homem recurvado sobre a esperança de sua sobrevivência. Sendo essa uma caixa de sapato com a seguinte mensagem: "Ajude um deficiente visual". Sobre seu colo, um acordeão.
Tocava músicas conhecidas do povo. E esse não fazia o esforço de conhecê-lo. Pobre homem...homem pobre. Postei-me à alguns metros e comecei a escutá-lo. Senti-me a única disposta a tal. Pensei se poderia ajudá-lo com algum trocado, mas não possuía nenhum. Ele parou por alguns minutos e tateou o fundo da caixa. Soltou um leve sorriso. Com isso, recomeçou a tocar sua leve música. Senti o ambiente conturbado se transformando em uma plumagem. Isso! Era uma plumagem. Branca. Pude ver os transeuntes asquerosos dançando embalados pelo som do acordeão. Trajavam roupas de gala. Uma luz envelhecida nasceu e brilhou em pequenos focos.
Tocava músicas conhecidas do povo. E esse não fazia o esforço de conhecê-lo. Pobre homem...homem pobre. Postei-me à alguns metros e comecei a escutá-lo. Senti-me a única disposta a tal. Pensei se poderia ajudá-lo com algum trocado, mas não possuía nenhum. Ele parou por alguns minutos e tateou o fundo da caixa. Soltou um leve sorriso. Com isso, recomeçou a tocar sua leve música. Senti o ambiente conturbado se transformando em uma plumagem. Isso! Era uma plumagem. Branca. Pude ver os transeuntes asquerosos dançando embalados pelo som do acordeão. Trajavam roupas de gala. Uma luz envelhecida nasceu e brilhou em pequenos focos.
Senti meu corpo pesado, prostrado ao chão. Uma angústia alastrou-se em mim. Não tinha como ajudá-lo. Essa era a verdade. A dura realidade. Tão rija que terminou com o meu baile de gala. As pessoas já não trajavam longos vestidos e ternos. Os focos de luzes findaram-se. A cidade, antes palco do espectáculo, voltou a ser a mesma localidade medíocre de sempre. Contudo, o acordeonista ainda estava lá. Fardado ao local e ao tempo de sua miséria. De sua fatalidade. Destinado a tocar as tristes notas de seu instrumento; de sua alma.
E eu...que fiz? Segurei uma lágrima e prossegui meu caminho. Porém, meu corpo ainda está naquela praça que circunda uma igreja. Ainda ouço o velho tocar o acordeão. Posso vê-lo, logo após de reproduzir a última nota, arrumar seus pertences e rumar até os degraus do santo edifício. Subir. Entrar. Sentar. Lamentar-se e rezar. Ele ora incessantemente, assim como sua imagem perpetua em minha memória.
2 comentários:
Como sempre, um texto mto bom e interessante
bjs
Sempre vejo "os corpos em moviento". Mas ás vezes percebo que faço parte deles. Que há dias em que sou apenas um corpo em movimento.
A parte em que a pessoa observa o homem. Eu nunca fiz isso. Mas creio que essa angústia que é citada, já senti várias vezes. E foram em situações parecidas, mas não iguais!
;)
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