Todo mundo sabe o que eu gosto. Todos sabem os carros que possuo. Sem excepções, eles gravam em suas memórias meus figurinos e, deles, passam o dia a comentar. Seja no banheiro, em lugares públicos ou no telefone: eles estão sempre a falar. Não sou estrela. Não sai em revista de nenhum tipo. Não tenho ou ganho rios de dinheiro. Muito menos me visto do modo mais impecável. Porém, eles continuam a olhar-me.Sinto seus olhares virem me perfurar frontalmente, pelas costas...de todos os lados. E destes mesmos, posso sentir o azedume que se manifesta no ar.
De certo modo seria consumismo. Mas não vou crucifica-lo. Todos nós sofremos deste mal. Acho que é inveja. Inveja humana, mesmo. A inveja animal é mais aceitável. Mais explicável. Algo vital.
Nós humanos somos seres vigiadores e vigiados. Vai dizer que você nunca colou a orelha na porta ou ficou no mais absoluto silêncio para ouvir outra pessoa, sem que ela soubesse?
Contudo, queria ter agulhas e linhas para costurar-lhes as bocas. Algo afiado e pontudo para furar-lhes os olhos. E cera o suficiente para tapar-lhes os ouvidos. Quem sabe assim, na mais absoluta escuridão sensorial, eles parassem um momento e olhassem para si mesmos. Sentissem seus interiores vazios. Corroídos por sua estupidez, inveja, avareza e todos os sentimentos mesquinhos em relação à terceiros.
Que essas condutas de segurança, de auto-ego, parem de funcionar!