23 Outubro, 2007

Redemption

Sentiu-se alegre sem motivo algum. Pegou o casaco, jogado na cadeira, colocou o par de botas e saiu. O ar tinha um cheiro leve, meio cítrico. Era calmo o dia. O sol ora se escondia nas nuvens, ora iluminava ali em baixo. Passou entre as árvores. As folhagens já começaram a cair. A rua estava forrada de dourado. E um sorriso grande, demasiadamente desproporcional ao rosto, se postou. E ele não iria perecer.
Viu os velhos rostos, as velhas casas, sentiu os velhos aromas e tudo aquilo lhe agradou.Magnífico! Tamanha felicidade não deveria ser dada só a um ser. Não deveria permanecer só em um ser. Deveria irradiar em todos os sentidos. Atingir o máximo de almas possíveis e não voltar à fonte. Mas, aquela felicidade era assim tão majestosa? Não, não era. Era pequena, inútil e efêmera. Quem se importa? Algo desse tipo não se tem todos os dias, não?
Então, decidiu subir a rua no sentido norte. Iria fazer algo que já devia ter feito. Mesmo com a inclinação da subida, não se cansou. Chegou ao topo. Viu a porta. Era branca, intocada. Intocada por toda uma vida de puro orgulho. A maçaneta era convidativa. E como era! Quando o pé direito acompanhou o esquerdo, e adentrou pela porta, o passado foi deixado para trás.
Luz grandiosa! Encha minha consciência com brandura, com essa luz amarela e deixe-me ser como as folhas que forram o chão de dourado: renascem límpidas, puras para mais uma longa estação.

15 Outubro, 2007

I wanna breathe that fire again

Abriu os olhos, mas a visão demorou a ficar perfeita. Retomou a percepção do local e tempo em que estava. Colocou os óculos escuros e olhou através do vidro da janela. Estava um sol enfadonho lá fora. Ajeitou-se no assento do carro e olhou paro o lado. Ele ainda estava ali. Voltou a atenção para o exterior, novamente. Esse, agora, em tons de preto e branco. As nuvens continuavam rijas, ao contrário do cenário terrestre que continuava a correr, sem perder o fôlego e compasso, na mesma velocidade do carro. A música tocava alta e triste. Os acordes e palavras carregadas pesavam os ouvidos e a consciência dos dois ouvintes. Percebeu que algumas gotas caiam sobre o vidro e, também, algo quente escorria por seu rosto. Sentiu um gosto salgado nos lábios. Há tempos isso não ocorria. No mesmo instante em que outras lágrimas começaram a brotar, ela foi para longe dali.
Não iria mais ter que se preocupar com nada. Não teria que fazer o cotidiano acontecer. Nem teria que fingir ser feliz. E diante a diversidade de opções, ela se sentiu livre. Livre de suas posses, obrigações, fingimento. Isso seria bom. Maravilhoso.
O cenário do carro voltou. Algo crescia de orelha a orelha em seu rosto. Pois bem, um sorriso. Esse dissipou as lágrimas e a tristeza. Tão tola era ela em pensar que, aquela contracção facial, iria acabar com seus pesadelos. É. Foi aí em que tudo voltou a ser como começou.
Ela tentou se concentrar no exterior, na negritude, mas sua prioridade era outra. Derreteu pelo assento, tentando se esconder da negritude, e fechou os olhos. Puxou uma reza pedindo pelo fim.
E com o peso dos acordes e das palavras, suas pálpebras penderam e fecharam.

04 Outubro, 2007

Puro esmo expressivo.

Os dias antecedentes. As horas. Os minutos. A idade. São fatos presentes em experiências novas. Ainda me lembro da excitação do meu primeiro dia de aula. Lembro de ter, e alimentar, o medo de não ser aceita. Lembro da idealização do meu primeiro beijo. Dos meus planos para tal. Mas, no final das contas, o Destino controlou o meu destino planejado. E, sabe, foi melhor.
Falando de lembrar de fatos, recordo-me do orgulho que eu sentia quando minha mãe arfava o peito e dizia: "Ela sempre foi uma menina precoce", no bom sentido. Acho que ela usava a palavra inteligência junto à essa frase, e isso enchia-me o ego. Mas, agora, vejo que ter sido precoce não foi assim tão bom. Pulei fases, perdi etapas, pessoas e, como conseqüência, me sinto deslocada. Nada para se ter orgulho. É como diz logo aí ao lado :"são sentimentos, não verdades". Porém, fases e etapas podem ser vividas em outros momentos, se perdidas. Pessoas, não. Queria poder reviver espectros do meu passado e me levar para lá também. Ser um espectro do passado. Ser o "eu" que fui ontem, semana passada, 8 anos atrás. Talvez amanhã eu já não queira ser mais este "eu" que sou hoje. As múltiplas facetas da minha personalidade vêem à tona em pontos do tempo e espaço distintos. Ontem me crucifiquei por um ato infantil; amanhã irei fazer uma revolução. O Diabo e o Anjo vivem suas vidas paralelas. Querem ser o outro e, quando o fazem, brincam com a minha percepção. Não sei mais se quero linhas grossas e negras, no meu quadro sentimentalista, ou se quero definição das cores e formas. Afinal, "somos constantes da mesma variável, não?".