28 Janeiro, 2008

Dois fardos na corda bamba.

A lembrança do tempo, naquele dia, já se fora. Não consigo decidir se ele estava chuvoso, ensolarado ou nebuloso. Não importa. Nunca importou. O que estava em jogo, naquele momento, era o destino. Destino que movia as rodas do carro, tão depressa, que nos levava a um ponto pré determinado. Mas, não sabia se era realmente aquilo que nós cinco queríamos. Só tinha uma certeza: a minha indecisão.
E lá, apertada entre dois corpos, voltei minha atenção para o exterior. Sempre em movimento, como se fosse para que os detalhes nunca fossem percebidos. Porém, algo sempre é apanhado. O vento, que entra pelas janelas entreabertas, traz o cheiro lá de fora. Inodoro. Cheiro de ar. As cores se misturam e são puxadas para trás. Para o passado que se estendia atrás de nós.
Então, entre os canteiros maltrapilhos que separam as rotas de ida e vinda, lá estava ele. O mendigo. Caminhava ali no meio. Sem destino. Esperava apenas que aonde quer que chegasse, pudesse continuar vivo. Não sei se isso pode ser chamado de 'viver'. É apenas 'balbuciar' os passos, os atos, a vida. O que quer que seja, ele o estava fazendo.
Por um momento, senti-me mais próxima daquele homem. Apenas um fato nos unia. A indecisão. Essa prolongação mediana das realizações. Sempre no meio. Seja no banco do carro, ou entre a ida e o regresso. Éramos dois corpos em movimentos opostos e com destinos desiguais. Já não sabíamos se iríamos continuar a viver. Acho que nunca soubemos de nada. Nada além da nossa medianidade.

2 comentários:

Evan Ters disse...

Sempre me senti mediano.. ate pelo fato de eu ser o filho do meio.. e nunca gostei das minhas incertezas e nao jogar pra nenhum lado 100% saca? sempre no meio do muro das decisoes.
A psicologa disse que isso é bom porque pra ficar em cima do muro precisa de equilibrio.. e isso poucos tem!
Nao sei se o que eu falei foi bosta.. mas deu vontade de contar aqui.. e sua narraçao foi linda. juro que me vi viajando na mesma situaçao que a sua! haha

Beijo Ester!

Nadezhda disse...

Acho que o fato de serem indecisos, já os tornam íntimos. Mas uma intimidade que as pessoas jamais perceberão. Talvez por serem medianas demais.

Beijo.