Ela entrou. Jogou os pertences no sofá da sala. Tirou os sapatos de salto alto e pode sentir as juntas dos dedos dos pés, novamente. Abriu as cortinas. Os olhos doeram. Então, olhou para o loft. Triste. Vazio. Vácuo. Sem som.Andou até a cômoda perto da escada. Porquê colocara um arranjo de orquídeas ali? Tentara, ela, escondê-las? Pegou-o e girou meia volta nos calcanhares. Sim, a mesa seria o melhor lugar. Lá está.
Jogou-se no divan. Fixou o olhar no teto. Desceu-o para as parede. Floridas. Não gostava daquela estampa. Por um momento, pensou que levantaria para ir arrancá-la. Mas, reteve-se. Porém, levantou-se. Pegou um maço de cigarros na mesinha de centro. Acendeu um. Aspirou a fumaça. Segurou-a. Soprou-a para longe. Deitou-se novamente.
A música, que ressonara durante a manhã, em algum lugar além de seus ouvidos, voltou. As dedilhadas nas teclas do piano de calda, junto com os contra-baixos tocando em vagarosos tons, encheram-na a mente. O local. Não lembrava mais de nada que acontecera até ali. Nada mais importava. Até que o telefone tocou.
Demorou para percebê-lo soar. Atendeu-o. E a voz disse:
"- Lamento, mas nada irá durar daqui pra frente".
Desligou. E lá, ao lado do aparelho, ficou.
A bituca caiu impotente no chão. Tudo frouxo. Sem nexo.
Voltou ao divan. E perguntou ao veludo roto que o revestia: "Quantas vezes mais ficarei perplexa com esses telefonemas?".
Silêncio.